Havia, lá na rua, um desenhista, daqueles que fazem biscates a retratar fotografias a carvão. Lá no bairro era conhecido pelo “pintor” não sei se por ignorância ou se porque para alem de desenhar, também pintava, mas nunca o vi a pintar. O pintor estava todos os dias sentado num pequeno banco, daqueles desdobráveis, em frente à tasca do Zé, tinha a tela presa a uma velha armação de madeira e a fotografia agarrada a ela por uma mola, sempre no canto superior direito. Não creio que alguma vez alguém tivesse mantido com ele uma conversa mais longa que a necessária para acordar os termos do próximo biscate, pelo que ninguém sabia em que país ele tinha nascido pelo sotaque e cor de pele sabiam apenas que ele não era Português.
O pintor era negro, aparentava ter os seus 60 anos e pelo aspecto das mãos, enrugadas e calejadas, dava a sensação de que tinha levado uma vida de trabalho (talvez no campo, talvez numa fábrica) antes de se dedicar ao que era, evidentemente, a sua arte. O pintor tinha uns profundos olhos castanhos e um olhar aterradoramente melancólico, daqueles capazes de derreter as pedras da calçada. Poderá ter sido o fascínio causado pelo seu olhar que me fez aqui contar a história do pintor, não o sei. O pintor andava quase sempre de gorro e vestia uma camisa de flanela nos dias mais frios, no verão trazia vestido uma camisa de manga curta. Os sapatos, esses, eram os mesmos sapatos pretos, desbotados e rotos, todo o ano.
O pintor tinha uma característica curiosa que o tinha deixado famoso no pequeno bairro onde eu morava – as imagens que ele desenhava pareciam estar vivas, eram mais do que meras imagens, era quase como se fosse a própria pessoa gravada ali, a carvão, ao invés da imagem dessa pessoa. É difícil de perceber, eu sei, eu próprio não acreditei quando me contaram, até ver com os meus próprios olhos um quadro da sua autoria, e testemunhar, ao vivo, o mortífero olhar de um individuo, perfeitamente retratado numa tela. Diz-se que foi um dos seus quadros que levou à loucura uma senhora que morava no 23. A senhora do 23 era uma velhota que, quando eu era miúdo, costumava passar na rua de braço dado com o marido, ela, quando me via, afagava-me as bochechas enquanto comentava a minha altura. Infelizmente o marido da senhora do 23 teve um ataque cardíaco há uns anos, e não sobreviveu. E quando o pintor apareceu lá na rua ela esteve entre as primeiras a pedir-lhe para retratar uma fotografia do seu marido, tirada por um fotografo da avenida (que no seu ramo era bastante conhecido), em que o seu marido ostentava um fato e gravata e, com um olhar profundo, mirava a lente fotográfica. Ao conhecer a importância desta fotografia para a velhota o pintor esforçou-se e considerou o resultado um dos seus melhores trabalhos. Uns meses depois a senhora do 23 foi vista a ser levada para uma ambulância enquanto gritava “ele está vivo, o meu amor está vivo”. Nunca ninguém soube as circunstâncias que levaram a este acontecimento, mas a verdade é que nunca mais ninguém ouviu falar da senhora do 23.
O pintor morava num bairro social recente, toscamente construido, umas ruas abaixo da minha. Os prédios eram dolorosamente coloridos, desprovidos de varandas. Eram, na minha opinião, prisões individuais, não do corpo, mas da mente, uma perpetuação da baixa auto-estima, pobreza e solidão. Não solidão no sentido individual, mas uma solidão do grupo, pois no fundo estamos perante um estrato social isolado do resto da sociedade, marginalizados pelo betão barato que forma as paredes das suas casas. E não acredito que as vivas cores que enfeitavam as paredes exteriores dos prédios tivessem qualquer efeito em esconder a depressão e desespero que, dentro delas, se podia cortar ás fatias. Se estes bairros sociais são uma solução, não são os problemas das pessoas que la vivem que ficam resolvidos.
E o pintor não era excepção. Morava num prédio bem no centro desse bairro, com as paredes marcadas pelas expressões artístico-territoriais dos jovens do bairro, os graffitis. Ele não morava sozinho, tinha uma mulher, sua companheira de longa data. Ela tinha uma estatura baixa, ligeiramente obesa, partilhava com o pintor as mesmas origens, com o mesmo tom de pele e o mesmo sotaque. Ela trabalhava como ama na rua abaixo da minha. Segundo me haviam contado era uma pessoa extremamente dócil, as crianças pareciam adorá-la, cresciam saudáveis e os pais, babados, passeavam pela rua o cuidadoso trabalho da ama dos seus filhos. Ela e o pintor estavam juntos há 40 anos e o amor que ambos nutriam um pelo outro nunca se havia apagado. Não seria errado dizer que o pintor sentia, por sua mulher, a mesma paixão que há 40 anos os uniu. Tal também se aplicava à sua mulher. Ambos partilhavam na mão esquerda uma aliança de bronze. A vida não tinha ainda permitido ao pintor comprar uma aliança de ouro, mas ele guardava esse sonho, oferecer, à sua mulher, uma aliança de ouro, só então é que ele consideraria o seu casamento completo.
O pintor e sua mulher saiam todos os dias à mesma hora de casa, ela para ir tratar dos miúdos, e ele para se ir sentar no seu local habitual, onde ficaria a desenhar o resto do dia. Apesar dos problemas financeiros, o dinheiro ia chegando para viver, compravam comida, pagavam as contas e volta e meia lá compravam mais uma peça de roupa ou o arranjo de um electrodoméstico, não tinham dívidas. O pintor era feliz, fazia a sua arte, aquilo que mais gostava de fazer, e morava com a única pessoa que o compreendia, a sua única companhia.
Certo dia, o pintor saiu sozinho de casa para ir trabalhar, sua mulher havia ficado na cama, indisposta, segundo ela, com uma constipação. Lembro-me do olhar do pintor nesse dia, enquanto o via desenhar mais uma cara, tinha-o pesado, como se o peso do mundo descansasse sobre ele. Estava preocupado. Com o dinheiro do biscate desse dia comprou uma galinha, para fazer uma canja para a mulher, para a fazer sentir melhor. Nessa semana a sua mulher não saiu de casa, o pintor todos os dias ia a casa fazer-lhe o almoço e voltava ao seu local de trabalho mas, quando chegou o fim de semana, o seu estado tinha-se agravado bastante. Na semana seguinte o pintor ficou com ela todos os dias, achava que era cedo demais para perder a sua companhia dos últimos 40 anos. Quarta-feira, vendo o estado da sua mulher cada vez pior, chamou um médico, que lhe custaria as suas últimas poupanças. O médico esteve meia hora no quarto a examiná-la quando saiu disse ao pintor que ela encontrava-se já numa fase terminal de uma estirpe de tuberculose particularmente agressiva, e que não havia nada a fazer. Deixou o pintor com várias caixas de analgésicos, deu-lhe uma injecção de antibióticos e partiu, sem pedir qualquer pagamento. Ao ouvir as palavras do médico o pintor sentiu a sua vida a ruir. O seu amor, a sua única companhia na dura vida que havia levado iria partir. O pensamento de solidão assaltou-o como ele nunca antes o tinha sentido, e uma tristeza profunda fê-lo soluçar.
Nos dias que se seguiram o pintor não saiu de perto da sua mulher, sabia que era os últimos que iam ter juntos. Ainda mais lhe entristecia não ter podido oferecer-lhe um anel de ouro, como ele sempre sonhou fazer. nas alturas em que a sua mulher estava mais lúcida ele alimentava a esperança de o médico se ter enganado, mas a forte recaída que ela tinha de seguida apagava essa esperança e a tristeza assolava-o novamente. No fim do terceiro dia a debilidade de sua mulher tinha atingido o seu auge, e ele via a vitalidade a abandonar o seu olhar. Chegada a noite ele sabia que seria a última que passavam juntos.
Quando o relógio mostrava as 10 e pouco da noite a sua mulher abriu os olhos num momento de consciência, fitou o choroso marido e disse-lhe:
-Foste mais que um marido, e és mais que um homem.
Os dois abraçaram-se. Pela altura que a sua mulher voltou a adormecer o pintor soluçava. Ela morreu poucas horas depois. Sem dinheiro o pintor não teve outra hipótese senão enterra-la numa vala comum, no cemitério lá da freguesia.
No dia que se seguiu ao paupérrimo funeral lá estava o pintor, sentado no seu banco, a fazer a única coisa que realmente sabia fazer, a desenhar, a expressar a sua arte, imutável e eterna. Quando a sua mulher disse que ele era mais que um homem, tinha, de facto, razão, o pintor era muito mais que um homem, era um artista.
01:52 - 28 de Fevereiro, 2010